Conclave de lideres espíritas
Faltavam apenas dez minutos para as duas horas da madrugada revestia-se de intenso trabalho. Era a última semana do segundo milênio da era cristã. As expectativas criavam um clima psicológico na Terra de rara amplitude uma "virada" na qual as esperanças se renovavam coroadas de júbilo e fé.
Cumprindo mais uma de nossas programações no Hospital Esperança, reunimos influente grupo encarnado de pouco mais de mil formadores de opinião no movimento espírita. Trouxemo-los para uma breve e oportuna advertência. Radialistas, unificadores, médiuns, escritores, oradores, dirigentes, apresentadores, jornalistas, expositores, diretores, estudiosos e muitos presidentes de centro espírita estavam sendo devidamente preparados há quase três dias para que pudessem cooperar com e desligamento perispiritual e ampliassem sua lucidez quanto ao tentame.
O professor Cícero Pereira foi encarregado a fazer os comentários em nome de Bezerra de Menezes e Eurípedes Barsanulfo.
Observávamos a chegada de cada um dos membros, todos em estado de emancipação e acompanhados de pelo menos três cooperadores que se revezavam em variadas tarefas, junto a cada um deles. Alguns ofereciam dificuldade até para se assentarem nos lugares a eles reservados no salão, contudo, no horário previsto tudo era calmaria e prontidão para o serviço da noite.
Aos dois para as duas horas entraram Eurípedes e dona Maria Modesto Cravo ladeando o amado Bezerra e o professor.
Em brevíssima e sentida prece, Eurípedes ordenou o iniciar dos trabalhos. Dona Modesta toma de um microfone para explicar o objetivo da ocasião, dizendo:
- Amigos, paz e esperança a todos. Nosso tempo é curto em razão das condições especialíssimas a que foram aqui trazidos para guardarem registros nítidos e úteis ao regressarem ao corpo. Portanto, que fiquem claros nossos objetivos nesse encontro. O momento psicológico nessa última semana do milênio enseja sentimentos elevados em relação ao futuro. A mensagem que vos queremos endereçar diz respeito à necessidade imperiosa de propagarem uma noção mais realista e estimuladora do processo de crescimento espiritual entre vós. Sem fé nos esforços e sem a crença sustentável nos ideais de renovação interior a caminhada do discípulo do Cristo fica entorpecida e fragilizada. Atendendo aos ditames proclamados por Bezerra de Menezes em sua magistral palestra "Atitude de Amor" , convém-nos tecer considerações sobre o coração dos temas morais do Espiritismo: a reforma íntima. Abram o coração e dilatem o raciocínio para ouvirem a mensagem de Cícero Pereira e, em retornando ao corpo, arregimentem energias na difusão de uma campanha sem precedentes em torno do tema. Por hora, nos comprometemos em lhes enviar no futuro uma resenha desse nosso encontro pelas vias da mediunidade, a fim de acordarem vossas lembranças. Vamos ao labor.
Dona Modesta fez um sinal ao professor, o qual assumiu a tribuna:
- Declinarei de quaisquer detalhes que nos desaproximem do tema. Desejo que todos enriqueçam as almas nesse conclave com a paz e a esperança.
"Constatamos um ascendente número de adeptos que tem desistido dos ideais de melhoria, em razão do ônus voluntário que carreiam para si mesmos ao conceberem reforma íntima como um compromisso de angelitude imediata. O momento exige autocrítica e vigilância. Além do ônus do martírio a que se impõem, ilusões lamentáveis têm povoado a mente de muitos espíritas sobre o porvir que os espera para além dos muros da morte, em razão dessa "angelitude de adorno". Aqui mesmo nesse nosocômio enfrentamos situações severas da parte de homens e mulheres, os quais foram agraciados com o conhecimento e o trabalho nos campos educativos da seara espírita e que, a despeito de suas honrosas fichas de prestação de serviços, encontram-se envergonhados uns e atormentados outros, porque descuidaram do erguimento dos valores eternos na sua intimidade. Muito, deles, aliás, não esqueceram a reforma íntima, mas não souberam edificá-la.
"Os espíritas que desencarnam em melhores condições trazem em comum a persistência que nutriram no idealismo superior até o último dia em seus corpos físicos. Essa, porém, não tem sido a "marca moral" da maioria que, variadas vezes, tem se equivocado com estereótipos de conduta espírita consagrada nos círculos da doutrina entre os homens. Tais equívocos existem porque os modelos erigidos como referências ou padrões quase sempre, conduzem o discípulo à acomodação e ao desculpismo que produzem o desleixo na avaliação íntima das causas de suas imperfeições. Nessa passarela de perfis de comportamento socialmente aceitos dentro da Seara a criatura sente-se excluída e falida quando não consegue: transpor os umbrais de seus impulsos, nem sempre conhecidos de si mesma, para atender aos quesitos que: inserem na condição de "verdadeiros espíritas", conforme os critérios espontaneamente aceitos pela coletividade dos profitentes. A partir de então, se não conta com a fraternidade e a compreensão alheia, arrefecem nos seus ideais ante os assédios da dor psicológica decorrente da autocobrança.
"Somente sentindo-se aceita como é nos grupos de sua participação é que a criatura encontra motivação para burilar-se nos campos do espírito. Essa não tem sido a realidade de muitos grupamentos que, lamentavelmente, em muitas ocasiões, ao invés de cumprir o desiderato de serem Casas de Consolo e Verdade encarceram-se nos desfiladeiros de templos de hipocrisia e intransigência.
A reforma Íntima não pode mais se circunscrever a mero "artigo de discurso" para que haja um sentido evangélico nas idéias espirituais, que construímos na tarefa da comunicações de nossos princípios. Carecemos dissecá-la com mais clareza para que a imaginação humana, limitada por ilusões, não a converta em "fórmula salvacionista", mensurando-a através desses estereótipos de pouco ou nenhum valor moral.
"Tivemos três fases bem marcantes e entrelaçadas no movimento humano em torno das idéias espíritas: o fenômeno, a caridade seguida da difusão e agora, mais que nunca, a interiorização. Entramos no período da maioridade, preparando-nos para a aquisição de valores incorruptíveis. Nossa meta é o Espiritismo por dentro, o intercâmbio de vivências morais à luz das bases que consolidam a lógica do pensamento espírita. Na etapa da caridade em que predominou a ocupação com o próximo, muitos corações inspiraram nos conceitos doutrinários para transferir a outras existências a continuidade de seu progresso na melhoria espiritual. Raramente ouvimos esse enfoque descuidado nos dias hodiernos. Por outro lado, uma nova postura extremista desponta-se com vigor: a santidade instantânea. Se ontem havia um descuido em razão de fugas, hoje temos uma nova invigilância por causa da ilusão em "saltos evolutivos".
"Inspirados em padrões de comportamentos rígidos da religião organizada, muitos discípulos da "boa nova espírita" asseveram seguir os exemplos de Jesus e Kardec guardando cenho carregado e distância das atitudes espontâneas de alegria e afeto, alegando seguir as orientações doutrinárias como se houvesse um estilo exterior e predefinido de reconhecimento dos espíritas. A grandes malefícios tem levado essa cultura de "santificação de adorno" por impedir as criaturas a uma incursão nas profundezas de si mesmo, objetivando identificar as necessidades individuais de aprimoramento. Cada Espírito tem imperfeições próprias, únicas, e, também, qualidades em diversificada intensidade e característica, não sendo útil e nem sensato a adoção de um elenco de convenções religiosas de fora para dentro para serem seguidas.
"Espiritismo é a mensagem da Boa Nova para os tempos atuais. Boa Nova quer dizer boa notícia, boa novidade, e o principal sentimento de quem comunica uma boa notícia é a alegria. Por mais avançadas sejam as conquistas humanas, o Evangelho continua sendo a Grande Novidade desprezada pelos homens para que reine a paz e a eqüidade social, o caminho esquecido e protelado por se tratar da "porta estreita" que exige conduta austera e vigilância permanente. Boa conduta e vigilância, no entanto, não significam que se deva cobrir de tristeza e carranca a pretexto de ser responsável e íntegro.
"Trabalhamos para que o movimento espírita se alinhe com os demais movimentos humanos que colaboram para o apressamento da regeneração. A despeito de suas valorosas conquistas, não poderá triunfar ante os desafios sociais da atualidade sem assumir o compromisso de projetos orientados para o crescimento pessoal. A tangibilidade da moral que sustenta os fundamentos do corpo doutrinário espírita constituirá o grande diferencial entre todos os métodos até hoje utilizados pela religião para conscientizar o homem. Fechar os olhos para essa necessidade poderá prolongar e fortalecer as primeiras seqüelas palpáveis do processo de institucionalização, o qual tem inspirado nocivos episódios de estagnação e dogmatismo nas concepções e nas atitudes no seio desse momento.
Nesse trecho da palestra o clima do início sofreu significativa alteração. A platéia mantinha-se atenta aos comentários do palestrante. Alguns companheiros ofereciam certa dificuldade para manterem-se aquietados, o que logo era contornado pelos atentos cooperadores que se espalhavam aos milhares em funções previamente definidas ao encontro.
Pelo olhar do professor para a mesa onde se assentavam Eurípedes, Dona Modesta e Bezerra, sentimos que tangeria delicada questão em sua fala. E como se buscasse aval, assim continuou:
- Motivemos os núcleos espiritistas a uma campanha de esforços pela implantação da noção de "escola do espírito", erguendo trincheiras seguras e generosas para o entendimento mais consistente do ato de educar a si mesmo. Mais do que "Espiritismo curricular", nobre em seus fundamentos universais, necessitamos de esperança e consolo na alma para estabelecermos um clima de otimismo e entendimento, na superação dos percalços do caminho de transformações íntimas a que fomos todos convocados, integrando nossa ação, definitivamente, com todos os paradigmas descerrados pela proposta cósmica da Doutrina Espírita.
"Nessa "escola da alma" pensemos os valores humanos como metas possíveis e não como virtudes angelicais, das quais permanecemos muito distantes da possibilidade de experimentá-las. Encetemos claramente uma cultura de auto-estima e fé nas nossas potencialidades, sem receio dos tenebrosos assaltos da vaidade e do orgulho. A mensagem da Boa Nova é para todos os que desejem adotá-la como roteiro de vida. Conceber as propostas Sábias de Jesus como um convite para um futuro longínquo é agasalhar desânimo e desvalor para com nossas habilidades latentes. O Mestre não nos traria um convite que não tivéssemos condições de responder. Mesmo passados tantos séculos depois de Seu exuberante Ministério de Amor. Ele nos aguarda confiantes na decisão de segui-Lo.
"A ausência de horizontes novos sobre velhas lutas, enfrentadas pelos discípulos espíritas no campo íntimo, tem lhes desmotivado em relação aos nobres ideais de crescimento. Buscam respostas e caminhos, mas eis que os vigorosos reflexos da esteira evolutiva teimam em se apresentar, provocando desgosto e baixa auto-estima, subtraindo o vigor da sinceridade nos compromissos de melhoria assumidos perante a consciência.
"Dura realidade precisa ser avaliada em favor de nosso próprio bem: mais do que práticas e instituições é necessário preparar o seguidor da doutrina para aprender a gostar de relacionamentos. Com raríssimas exceções, o espírita, assim como a maioria dos homens reencarnados, não aprendeu a gostar das pessoas com as quais convive, descobrir-lhes as virtudes, encantar-se com suas diferenças, cultivar a empatia. Muitos agem como se pudessem beneficiar-se das práticas que tanto amam sem ter que suportar o "peso" das imperfeições alheias - o que muito lhes agradaria. Ama-se muitas vezes com mais alegria o Centro, suas dependências e tarefas, que aqueles que nele transitam ... Há companheiros com mais cuidado com seus livros espíritas que com os amigos de tarefa ... "
Novamente constatou-se a inquietude entre os ouvintes. Algo os desagradava profundamente. O professor não se fazia surpreso e prosseguia intimorato:
- No que tange aos núcleos espíritas, especialmente, convenhamos que o excesso normativo tem levado a prejuízos incalculáveis na criação de relações autênticas e educativas. Necessário resgatar o foco central do Espiritismo: o amor entre os homens antes de ritos e práticas, os quais não passam de recursos didáticos de aprendizado e enriquecimento das vivências.
"A proposta do amor contida no Espiritismo-cristão não deve circunscrever-se a meros discursos estéticos na tribuna, tampouco a ocasionais doações de fins de semana no tempo que sobra junto às tarefas caritativas. O lar e a vizinhança, a rua e a empresa, a escola e as instituições humanas de recreação, os grupos sociais em geral aguardam-nos na condição de sal da terra para operar a inadiável metamorfose espiritual da regeneração.
"Consolidemos projetos de humanização nas agremiações da Terra em favor de dias melhores e mais proveitosos, como nos convoca o amado Bezerra de Menezes a vigorosa aplicação de um programa de valores humanos nos centros espíritas. O espírita passou a ser um conhecedor da vida espiritual e suas leis, mas continua ignorante sobre si mesmo, porque adota-se estudos sistematizados de Espiritismo mas permanece um vácuo nos estudos sistematizados sobre si mesmo, o autoconhecimento. Temos aqui mesmo no Hospital Esperança muitos devotos que detinham toda a história do Espiritismo na memória, conheciam bem todos os clássicos da Doutrina, contudo, não se esforçavam para estampar um sorriso aos companheiros de grupo."
Após essa fala grave, houve um burburinho geral.
Curiosidade e certa dose de desconforto pairaram no ar. Todavia, a medida em curso não comportava maiores digressões face ao estado de sonambulismo em que se encontravam os encarnados. Embora alguns tenham ensaiado algumas indagações e questionamentos, foram contidos por seus condutores. Quaisquer estados de exaltação poderiam pôr a perder a incomparável ocasião. Refeito o ambiente, o professor, com mais ênfase e tomado de abundante afetividade, pronunciou-se como a saber a natureza das dúvidas que não chegaram a serem externadas, dessa forma:
- Ninguém em sã consciência poderá negar que velhas fórmulas religiosas foram copiadas para a estrutura de nossa seara, estimulando o retorno de fracassadas vivências da alma no campo do egoísmo.
"Religião sem religiosidade é uma dicotomia milenar, em nossas ações!"
"Temos "projetos sociais religiosos", entretanto são escassos os nossos "projetos pedagógicos de religiosidade" A ação social espírita, tão rica de iniciativas, quase sempre tem priorizado o ato de solidariedade distante do seu caráter educativo, esbarrando, vez que outra, nos atóis dos movimentos religiosos de massa", encalhando inúmeras vezes a embarcação do raciocínio nos excessos da fé de superfície. Nossas ações sociais estão cada vez mais contaminadas pela "linguagem dos significados", isto é pela concepção interpretativa do Espiritismo centrada no "discurso salvacionista", sustentando posturas de ufanismo ideológico e ausência de diálogo, em oposição aos princípios de fraternidade acolhedora e interatividade pacífica os quais emergem da filosofia espírita e que deveriam florescer em relações de paz e inclusão. Assim expressamos com rigor, para que não estimulem em suas fainas de formação de opinião as expectativas de angelitude após a morte corporal. Por mais nobres sejam as obras que ergamos, por mais devoção a elas ofereçamos, torna-se imperioso o desapego de fantasias de merecimento em torno de supostas honrarias no reino dos espíritos. Adotemos a condição de aprendizes e servos, pelo bem de nossa paz. Nossas atividades, por mais nobres, não passam de frutos da boa-vontade de quem está recomeçando.
"A visão religiosa com a qual fomos educados fez do erro o pecado e da melhoria da alma uma virtude para almas seletas. Jesus, como modelo e guia, tem sido interpretado como uma meta distante e para poucos, incentivando a mentalidade da estagnação.
"Ao longo dos milênios de experimentos evolutivos, o homem instintivamente praticou a adoração ao "Ser Supremo" através das mais variadas formas. Desde os horizontes da racionalidade primitiva até os pródromos da religião organizada, foram muitas as conquistas humanas cujo fim foi reverenciar esse "Ser Onipotente" que hoje chamamos Criador e Pai. Semelhantes vivências arquivadas na alma passaram a constituir o patrimônio mental da religiosidade - impulso humano para buscar o transcendental, o sagrado. E como religiosidade expressa-se de conformidade com as conquistas espirituais e intelectivas, a necessidade psicológica de adoração exterior para tornar mais concreta a relação com Deus fez surgir um enorme contingente de rituais e cerimônias, castas e convenções que determinaram uma ética própria para quantos se filiassem aos roteiros dessa ou daquela crença. Nasceram então os protótipos de conduta religiosa estabelecida para que o homem se apresente a Deus em condições dignas de "Sua Aprovação". Secciona-se profano do sagrado causando uma dicotomia inconciliável entre comportamentos classificados como puros e impuros aos "Olhos do Pai".
"O dogma como crença imposta toma feições fortes porque veio a galope no dorso das "ameaças do céu"" nascidas em concílios e tribunais recheados de interesses de facção. Dentre essas sacramentações ideológicas que sulcaram a mente com nocivas noções sobre o que seja a renovação espiritual, vamos encontrar o terrível "vício de santificação", resultante das idéias de "angelitude instantânea", conduzindo a criatura para condutas puritanas das quais não faziam parte os seus sentimentos, uma idealização do que seja ser cristão.
"Associamos assim à tarefa da santificação pessoal nos dias atuais a idéia de uma vida sem infortúnios, como se santificar fosse mais uma fórmula de baixo custo para nos livrar da dor, um modo fácil de alcançar o reino dos céus. Fazemos tudo certinho e Deus nos recompensa com felicidade ... Fazemos negócios com Deus ...
"A negação das necessidades Íntimas a título de santificação leva a uma ruptura, nem sempre bem conduzida por parte de quantos anseiam pelos novos ideais de espiritualização. Essa ruptura, no entanto, precisa se feita passo a passo para não gerar maiores lutas.
"O nível de exigência excessivo com a melhora interior pode gerar muitas distonias. Confundimos elevada soma de cobranças com esforço efetivo de transformação. A cobrança gera angústia e somente o esforço sereno leva a libertação.
"Muitas ilusões e preconceitos cercam o processo da reforma íntima. Alguns deles são: a idéia de saltos evolutivos com mudanças abruptas, a presunção de que somente o Espiritismo pode propiciar a melhoria do homem, a concepção de que estar na tarefa doutrinária seja automaticamente um indício de conquista virtuosa, a falsa concepção de que existem "partes" de nós que não podem ser aproveitadas e precisam ser eliminadas ou substituídas por algo nobre, a prisão a modelos mentais de ação como critério de validação de crescimento espiritual.
"Poderíamos assinalar que vivemos em maior ou menor influência sob um milenar "arquétipo de santificação". A própria Lei do Progresso acende a chama do desejo de ser melhor, no entanto, nossos condicionamentos morais assopram vigorosamente sobre o campo do discernimento criando miragens e perturbações sem fim.
"Nosso apelo a todos que aqui se encontram, perante a toga da responsabilidade de serem influentes líderes da comunidade doutrinária, é a de que debrucem sobre o tema pouco devassado da conquista de si mesmo e nos auxiliem a estender um "programa de moralização dos conceitos espíritas", promovendo a casa espírita ao ideário de ser uma autêntica "escola do espírito". A reforma íntima, tão decantada, não tem sido devidamente explicada!
"Que fique clara nossa intenção. O Espiritismo em si, enquanto teoria, é moralizador. Porém, quantos lhe aderem aos princípios suplicam clareza nos rumos para que edifiquem na intimidade a personalidade nova, já almejada pela maioria dos que se encontram atraídos para as propostas espiritistas. Como mudar? Como fazer? Como ser um Homem de Bem? Eis as nossas questões.
"Jesus nos ampare nesses tempos novos de renovação e pacificação da humanidade. Lutemos todos com todas as forças para atender ao apelo sábio de Emmanuel quando diz: "Expulsai da Terra o egoísmo para que ela possa subir na escala dos mundos, porquanto já é tempo de a Humanidade envergar sua veste viril, para o que cumpre que primeiramente o expilais dos vossos corações".
Após os cumprimentos finais, vimos que extensa fila de cooperadores formava um corredor indicando por onde regressariam quantos estavam emancipados do corpo. Devido à condição de semitorpor, não ofereciam condições favoráveis ao diálogo, a não ser um ou outro que já demonstrava melhor habilidade nas incursões noturnas fora da vida corporal. Desfeita rapidamente aquela aglomeração, cada um retornava a seus afazeres. Rosângela, Sérgio e Pedro Helvécio, jovens com os quais sempre contávamos nas atividades junto ao Hospital Esperança, solicitaram-nos alguns momentos de prosa com Dona Modesta. Para nossa surpresa, quando percebemos, ela própria espontaneamente deslocava-se da mesa onde se encontrava em nossa direção, a nos dizer:
- Teremos alcançado nossos nobres objetivos. Ermance?
- Creio que sim, dona Modesta. O ambiente estava apropriado e, no que pude avaliar, as disposições psicológicas de nossos irmãos com a transposição de milênio, de alguma forma, infundiam-lhes um ânimo especial para que arquivem desejavelmente a mensagem em seus corações. Precisaremos de tempo para aferir com exatidão as promessas desse momento, aguardemos. No entanto, dona Modesta, nossos jovens, como de costume ficaram muito motivados e querem experimentar sua vivência com algumas indagações.
- Estou à disposição.
Com sua natural curiosidade, Rosângela foi a primeira a interrogar:
- Notei certa inquietude entre os participantes nesse "estado de graça" fora da matéria. Em alguns casos era visível o desagrado com algumas falas do professor Cícero. Como pode isso ocorrer entre os "mil escolhidos pelo Senhor" para ouvir essa preleção? Não deveriam estar alegres e demonstrando mais satisfação com a ocasião em razão da grandeza que possuem como líderes religiosos?
Ela ainda externava suas questões tomando por base a recém-finda experiência na carne junto às fileiras do protestantismo. Suas expressões ainda deixavam claro suas visões evangélicas. Seu desejo de aprender, no entanto, era enorme.
- Rosângela, minha jovem, não são "escolhidos do Senhor" e nem estão em "estado de graça". São almas que lutam tenazmente com suas tendências. De fato, não deveriam estagiar ainda nesse psiquismo de desagrado quando ouviram as claras advertências do professor. Todavia, essas criaturas que aqui foram trazidas são os mil líderes espíritas encarnados que mais padecem de um terrível mal, o qual assola a maioria das leiras de serviço do Cristo nas expressões religiosas de todos os tempos.
- E que mal é esse, Dona Modesta? - atalhou Rosangela, ansiosa.
- A doença da auto-suficiência espiritual ou o fascínio com a importância grandiosa que muitos corações supõem possuir nos serviços de Jesus. Os amigos espíritas, especialmente os mais experimentados na arte de liderar, precisam vigiar com muita cautela o encanto que tem devotado a suas "folhas de serviços". Bastas vezes confundem quantidade de tarefas e realizações com ascensão evolutiva, como se fizessem carreira nos ofícios de sua espiritualização. Ocorre que muitos corações de ideal, em todas as atividades doutrinárias, têm passado pelas tarefas sem se educarem através delas, e quanto mais expressivas elas são, mais aumentam os riscos de vaidade e ilusão. Temos por aqui vastos pavilhões de médiuns, divulgadores, escritores, evangelizadores da juventude. presidentes de centros espíritas, dispensadores da caridade pública, todos abençoados com as luzes da Doutrina Espírita, entretanto, sem conquistarem sua luz própria. Sufocaram-se no orgulho com a cultura e a experiência doutrinária e negligenciaram o engrandecimento moral de si mesmos através da reeducação dos hábitos e da aquisição de virtudes eternas. É um engano milenar da ilusão humana, ainda afeiçoada a vantagens exteriores sem ""consolidação dos ensinos Cristãos no próprio coração. Como disse o Senhor: "O Reino de Deus não vem com aparência exterior."
Sérgio, não contendo seu desejo de aprender e participar, externou:
Dona Modesta, qual a principal imperfeição desses líderes que estaria redundando em problemas para com os ofícios da seara?
- São excessivamente controladores por julgarem enxergar mais. Carregam consigo uma das mais antigas mazelas humanas: o desejo de serem servidos - uma faceta emocional sutil do desejo de serem amados ou da necessidade de serem queridos e aprovados pelos outros a qual termina por ser transferida para o costume de serem bajulados e incensados pelos que lhes rodeiam. Esse velho monstro da alma surge sorrateiramente como um hábito doentio de ordenar e comandar pessoas, já experimentado em muitas e muitas vidas sucessivas, uma forma de satisfação do egoísmo humano. Considerando o vício de prestígio que carregam esses corações, são intensamente atraídos para posturas de destaque. Adoram os cargos e o poder e, embora possamos encontrá-los também distantes dos títulos, estes são por eles possuídos no campo psicológico. São criaturas que realizam muito e tem significativa visão de conjunto das necessidades do movimento social em torno das idéias espíritas, apenas pecando pelo orgulho em que se inspiram por suporem possuir todas as respostas e caminhos para todas as necessidades e percalços da Seara. Isso lhes torna úteis em certas situações e extremamente rejeitados pela arrogância em outras ocasiões, quando excedem na atitude com sua suposta sapiência e grandeza. Verdadeiramente, nossos irmãos que aqui estiveram guardam conquistas apreciáveis, porém, nem sempre conseguem deixar de se enganar pelo sibilino personalismo que ainda carregam. Uma vez nessa postura fica fácil reconhecer-lhes as imperfeições prejudiciais ao serviço da obra cristã, porque não ouvem opiniões por julgarem ter as melhores, guardam convicções pessoais exacerbadas, não dão atenção às críticas, quase sempre decidem sozinhos, tornam-se pouco afetivos, muito racionais e adoram mandar sem fazer, ordenar sem cumprir. O conjunto dessas características promove-os a uma das condições mais inaceitáveis na atualidade para quaisquer grupamentos que se proponham a crescer espiritualmente, o autoritarismo.
- Mas, Dona Modesta - continuou indagando Sérgio - o que lhes tem faltado para agirem com essa atitude de supremacia?
- Visão imortalista, meu filho. Lembro-me como fosse hoje que, quando encarnada, o Espiritismo prático ou a mediunidade espontânea era de uma riqueza incomparável, conduzindo os homens a uma visão de vida afinada com a ética da imortalidade. Hoje, há uma priorização com o assistencialismo e a preservação filosófica, na qual as grandes maiorias dos núcleos distanciaram-se das vivências de intercâmbio sadias e educativas nos horizontes da mediunidade santificada. Faltam-lhes o "Espiritismo com espíritos", na expressão de Ivone de Amaral Pereira. O exercício mediúnico sério tem sido escasso nas casas do Espiritismo e o que prepondera é o consolo nas sessões de intercâmbio. Embora com seus méritos, a transcendência da faculdade que liga os mundos não tem se convertido em chances para que os benfeitores do além possam transmitir sua experiência e participar com mais assiduidade das vivências dos homens. Não foram poucas vezes em que Bezerra de Menezes teve que conta, com centros de umbanda e candomblé, nos quais encontram-se muitos corações afeiçoados ao amor, para fazer seus ditados ou operar suas curas. Lá a espontaneidade e o desejo de servir muitas vezes sobressai como qualidade indiscutível em relação a muitos centros doutrinários do Espiritismo, os quais têm fechado as portas mentais para o trânsito dos bons espíritos. Tem havido um engessamento voluntário do exercício mediúnico surgido a partir da tese animista, em meados do século passado. Sem visão de vida imortal, acomodam-se e deixam de descobrirem horizontes novos. Estacionam na paralisia do pensamento em conceitos e não se permitem reciclar práticas. Muitos, além disso, infelizmente, perderam gosto de aprender, esbaldando-se em seu "histórico de serviços" sem apresentar algo de útil para os reclames o momento atual.
Pedro Helvécio, sempre muito paciente, vendo rumo da conversação, perguntou com sabedoria:
- Que objetiva a tarefa dessa noite em trazendo-lhes para ouvir essa linha de raciocínios sobre a reforma íntima?
Em fazerem uma auto-avaliação. Notem que o professor não lhes chamou a atenção diretamente em nada, porque senão regressariam ao corpo imediatamente com forte indisposição emocional. Nesse caso, ao recobrarem a lucidez física alegariam que estiveram em tarefas de auxílio nas regiões inferiores ... O professor, com os cuidados que exigiam o momento, tangenciou os problemas morais de nossos irmãos conclamando-os à profilaxia. Não destacou suas doenças e sim o remédio. Ao convocá-los a um projeto de humanização, concede-lhes a chave dos seus problemas porque terão que se igualar, terão que se fazerem "gente comum" e despirem da "aura de santidade" que tanto lhes aprazem. Os líderes espíritas, quase sem exceções, asilam enorme sentimento de serem úteis à causa, mas se tornaram, como é natural acontecer em nosso estágio evolutivo, vítimas de si mesmos na medida em que usaram sua habilidade de gerir para interferir. Fazem uma liderança a gosto pessoal, e não conforme os imperativos do Evangelho e da pedagogia moderna ...
- Quais são as chances de sucesso da iniciativa de trazê-los aqui?
- Apesar do êxito desse momento, Helvécio, as chances são muito reduzidas de que nossos irmãos aproveitem a ocasião tanto quanto necessitam. Eles já perderam o gosto de ouvir, adoram mesmo é falar muito. Seus ouvidos não estão conforme a assertiva evangélica, ouvidos de ouvir. Muitos em suas crises de auto-suficiência, em verdade, zombam, inconscientemente, da inexperiência alheia exarando prognósticos e avaliações sem considerar o valor que possuem para a tarefa do Cristo.
Quando alguns tomam caminhos diversos dos seus, fazem vaticínios futuristas pessimistas para os outros e chegam em alguns casos, a dizer que perderão até a reencarnação caso façam isso ou aquilo. São apaixonados pela idéia e serem os proprietários da Verdade até mesmo do que virá acontecer, apoiando-se, freqüentemente, em teorias produções mediúnicas de valores duvidosos e interpretadas por suas leituras tendenciosas e bem pessoais.
- Dona Modesta - interveio Helvécio - observei em sua resposta à Rosângela que esses mil dirigentes são os que mais sofrem desse mal. Seria certo deduzir portanto, que a seara doutrinária tem sido atacada por essa doença moral?
- Certamente, meu jovem. Independente das iniciativas coletivas como a dessa noite, os esforços se multiplicam no campo individual com cada trabalhador.
Uma cultura de grandeza tem estimulado esse drama ético entre os co-idealistas no plano físico. Grande distância medeia entre possuir uma grande missão e ser um grande missionário. De fato, quantos foram brindados com a Doutrina Espírita são como a "luz do mundo", contudo temos que ser honestos e considerar que boa parcela de irmãos tem sucumbido aos golpes sutis do orgulho julgando-se bem mais valorosos que realmente o são para os ofícios da causa. Descuidaram de converterem-se a crianças em espírito. A criança é curiosa, nunca se imagina além do que é, reveste-se de simplicidade sem pretensõe; pessoais de ser a melhor, tem a alma aberta para o novo e a mente livre do que já passou e do que ainda virá, vivendo intensamente o momento presente. Não somente esses mil, mas uma infinidade de homens e mulheres da direção nos arraiais espiritistas se encontram nas garras da auto suficiência, fascinados por seus feitos e com sua bagagem, nutrindo pouca disposição para serem avaliados e criticados em suas idéias e ações. Gostam mesmo é de serem admirados e aprovados sem restrições, sendo que alguns adoram impressionar ...
Percebendo a fala oportuna, lembrei-me das tarefas intercessoras que temos participado em companhia de Dona Modesta e Eurípedes junto à crosta e resolvi sugerir:
- Dona Modesta, poderia nos trazer algo sobre as obsessões nesse terreno?
- Sim, Ermance, bem lembrado! Quando as posturas de nossos companheiros raiam para esses despaurérios da conduta, os famigerados adversários do bem se aproveitarn a mancheias. Muitos e graves episódios de fascinação coletiva rondam a Seara Espírita em razão desse lamentável quadro de personalismo e vaidade. Por isso nosso Senhor Jesus Cristo colocou uma criança no meio dos discípulos e disse: aquele que não se fizer como esse jamais alcançará o reino dos Céus. O resto da história vocês já conhecem, basta olhar os pavilhões do Hospital lotados de dirigentes que não souberam se diminuir para que o Cristo crescesse. Ajudaram muitos a se renovarem, mas não cuidaram tanto quanto careciam da mudança interior de si próprios ... Lembram-se do episódio da mulher adúltera, quando Jesus pediu para atirar a pedra? Quem foi que saiu primeiro?
Os mais velhos - respondeu de pronto Rosângela, pois tinha os versículos na "ponta da língua".
- Os mais velhos saíram primeiro porque são os que traziam mais condicionamentos e menos disposição de "rasgarem suas folhas de serviço" perante a vida. Será preciso muita humildade dos líderes cristãos para que assumam o importante papel que lhes compete nas tarefas da Doutrina. Precisarão de muita coragem para desapegar do que sabem, não envelhecerem com suas idéias, terem a habilidade para deixarem de ser repetitivos e aprenderem como se recicla sem se sentirem desmoralizados ou menos amados. Muitos deles, para manterem as aparências, abandonaram a capacidade de sentir a alegria em serem simpáticos, tornando-se um estereótipo de rigidez com o qual pretendem ser imponentes e expressar uma idéia de sábios e "homens da autoridade", essa é a doença da auto-suficiência espiritual.
Helvécio, desejoso em dar novo rumo ao diálogo, inferiu:
- Apesar das lutas morais, nossos irmãos são valorosos na semeadura do Cristo!
Atalhou Dona Modesta, incontinenti:
- Os esforços dessa hora só se justificam por essa razão. Eles são depositários de expectativas alvissareiras de Mais Alto. São corações que merecem o refrigério da misericórdia face ao calor das refregas que enfrentam. Ao destacar seus traços enfermiços, o fazemos com unção e desejo de amparar. O Espiritismo penetra seu terceiro ciclo de setenta anos no qual se concretizará a maioridade das idéias espíritas (Seara Bendita). Nossos companheiros, se souberem adequar, serão excelentes operários de um tempo novo. Uma geração nova regressa às fileiras carnais da humanidade para arejar o panorama de todas as expressões segmentares do orbe, interligando-as e projetando-as a ampliados patamares de utilidade. O movimento espírita não ficará fora desse contexto, sendo bafejado por um processo de atualização de metodologias, comportamentos, práticas e conceitos. o que ensejará uma cultura cujos traços serão o pluralismo e a lógica. Apesar desses avanços, o livre-exame e o raciocínio científico que consolidam essas características só terão valor quando se destinarem a criar o humanismo e a ética, o afeto e o bem-estar. É tempo de renovar. Os "Decretos Celestes" são "tufões de purificação" que esterilizam todos os rincões da Terra. O "fogo renovador" dos "Embaixadores do Bem" está ajuntando o joio em molhos para queimar. .. As almas que cristalizarem o pensamento nos redutos do preconceito ou do dogmatismo enfrentarão sofrida crise de impotência, amargando o vexame e o desânimo. É por amor aos nossos líderes espíritas que aqui os trouxemos. Mais que nunca precisarão sedimentar em seus atos a tolerância construtiva, visão futurista, empatia com o próximo e desapego de suas realizações pessoais - quesitos essenciais para formarem o clima do diálogo e do entendimento com alteridade, as únicas vias de acesso ao paradigma do século XXI que estabelece a parceria solidária e pacífica como alvo de todas as aspirações sociais e humanitárias. Se rebelarem e fixarem na condição de apaixonados pelas suas obras, experimentarão a falência e a angústia quando aqui se aportarem. Mesmo que tenham realizado muito, talvez não terão edificado os valores essenciais para a garantia da paz consciencial no altar divino dos sentimentos elevados. Se os avisamos agora é para que não se queixem depois ...
Finda a conversa, saímos todos pensativos sobre a urgente necessidade da campanha pela humanização de nossa seara. Mais que um projeto de serviço moderno, é um convite para retomada de posições e reciclagem da cultura. Que a humanização nos auxilie a estar acima dos papéis de "heroísmo espiritual", permitindo-nos ser gente, gostar de gente e a viver como humanos falíveis sem "neuroses de perfeição", sempre dispostos a crescer.
Fizemos todos os registros pensando em enviá-los ao plano físico algum dia. Tornava-se imperioso informar ao mundo físico algo sobre a natureza das provas enfrentadas pelos dirigentes, os quais subtraíram de si mesmos a bênção de dirigir afinados com a Mensagem do Cristo ...
Muito desapego e coragem serão exigidos de tode nós para que deixemos as fantasias da auto-suficiência que nos fazem sentir um pouco melhores diante de nós, inferioridade, e assumirmos, enquanto é tempo, a condição psicológica prenunciada há mais de dois mil anos pelo Mestre do amor, quando assinalou:
"Mas não serás vós assim; antes o maior entre vós seja como o menor; e quem governa como quem serve. " (Lucas, 22:26)
Espírito Ermance Dufaux
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